Um bate-papo sobre produção independente

Por Emir Ribeiro (apoio: Gabriel Rocha)

Emir Ribeiro empresta um pouco de seu tempo, cada vez mais curto em função das obrigações e atividades que desempenha para esclarecer algumas questões levantadas recentemente por leitores de quadrinhos através da ferramenta social Facebook. Por haver a possibilidade de ser do interesse de outros leitores, foi feita a opção de transcrever a informação para esta página. A conversa transcorreu em tom de cordialidade, fator de amadurecimento e civilidade. Seguem as respostas do autor de Velta aos questionamentos de alguns participantes da discussão:

Não gosto de entrar em discussões, pois, geralmente, não acabam bem. Geralmente - no mínimo - findam em perda de tempo. Mas, vamos a alguns itens:
1) Quem afirma que só publico Velta, está mal informado. Basta ver a lista das últimas publicações (é só consultar minha página virtual), onde há edições estreladas pelo Homem de Preto, Nova, Itabira, e até a vilã Doroti.
2) Acontece que, esses outros personagens NÃO VENDEM tanto quanto Velta. As sobras de estoques que tenho em casa, não mentem: as edições da Velta esgotam muito mais rápido que a de outros personagens. Então, a conclusão é que meu público tem preferência por ela. Mesmo assim, não deixei os outros personagens de lado: mesmo nas edições protagonizadas por Velta, eles aparecem. Melhor exemplo disso é a "30 anos de Velta". Quem a tem, pode constatar.
3) Histórias inéditas da Velta também vem saindo, com frequência, mas, vejo que é importante resgatar o material antigo que não foi lido pela grande maioria dos leitores. Por exemplo: o material publicado nos jornais de João Pessoa, nos anos 70 e 80. Uma vez ou outra, nas edições publicadas, saíram uma ou duas histórias antigas.

Portanto, mesmo para um público pequeno, vale a lei de mercado, da compra e venda. Quem estiver farto de um personagem, simplesmente para de comprar a revista do mesmo. Foi exatamente o que fiz, há cerca de 20 anos, com esses personagens Marvel, DC, similares ou genéricos: já não suportava ler suas histórias, e por isso, parei de comprar. Hoje, não leio nada deles, e tampouco assisto seus filmes. Já me cansaram. É assim que funciona, em qualquer área. No momento, a Velta vende mais, e atendendo à maioria do meu público, publicando mais edições com ela.

E vale registrar: sinto-me privilegiado em contar com a arte maravilhosa do meu velho amigo Paulo Nery, nas capas das minhas edições. A recente capa da Velta contra Drácula - incluindo o poster encartado - estão de arrasar. Digo o mesmo para a capa da "Velta-2010 - uma aventura nos anos 30". E podem esperar mais arte do Paulo em "40 anos de Velta - Tomo 2", que homenageará o saudoso Judoka da EBAL.

A verdade é que eu me divirto bastante com os quadrinhos que produzo, e sempre fui do tipo insistente. Enquanto houver público e eu puder continuar produzindo e bancando as impressões, abastecerei esse público com mais e mais quadrinhos dentro da linha que a maioria gosta.

(...)

Na Comix Book Shop de SP tem quase todos os meus trabalhos recentes. O principal problema na grande maioria dessas lojas, gibiterias ou livrarias é a FALTA DE HONESTIDADE. Há os que vendem, mas, não repassam a porcentagem devida ao autor. Ficam enrolando, e acabam não pagando. Não tenho aparato jurídico para ficar cobrando valores baixos na justiça, por isso, a opção é "deixar para lá". No meu caso, prefiro me ater aos distribuidores e revendedores que são honestos. Não me arrisco com quem não conheço.

Com relação às poucas informações quanto à Velta veiculadas na mídia, vou contar um fato passado numa rádio local, nos anos 1970. Numa entrevista de uma cantora paraibana, o radialista indagou porque ela não se fazia mais presente na rádio, a fim de que fosse lembrada e suas músicas mais tocadas. A resposta dela: "Não estou vendo por aqui nenhuma horda de cantores norte-americanos visitando sua rádio, mas, aqui se toca 90% de música americana." Digo o mesmo com relação às tais páginas de notícias sobre quadrinhos. Não há nenhum representante da Marvel ou da DC assediando ou se fazendo presente junto às pessoas que elaboram as páginas virtuais, mas, sai 90% de notícias sobre Marvel, DC (mais destes 2), mangá e congêneres.

O bom e isento jornalista deve PROCURAR a notícia, e não esperar que a notícia o procure. Ao contrário da maioria, o extinto “Bigorna” fez a opção por divulgar mais HQ nacional, não se dobrando às imposições "de mercado" ou da mídia, e por isso, havia muita coisa minha aparecendo por lá. O “Universo HQ” sempre noticia meus lançamentos.

Enfim, com 40 anos nesse ramo, já vi, presenciei e experimentei de tudo. E as soluções que chegam ao melhor resultado, são as que adoto hoje, pois, são baseadas em fatos concretos. Quem não edita e não participa "in loco" do processo de criação, venda e distribuição, pode achar, pensar, fantasiar o que bem entender (afinal, democracia é assim), mas, sem estar DENTRO do processo, qualquer hipótese ou conjectura teórica cai no vazio, pela falta de experiência.

Por fim, a Velta é erótica ou erotizada DESDE que foi criada, há quase 40 anos. Ela foi criada justamente para CONTESTAR, para se opor à censura besta da época, para fazer frente ao tal "Comics Code" idiota que ficou impregnado na cabeça de muita gente, até os dias de hoje. Assim, se Velta ainda causa desconforto a alguma pessoas, por ser sensual, é sinal de que a proposta ainda não esfriou, e continua em voga.

Meus minutos diários de limite na internet já acabaram. Qualquer dia, aparecerei de novo, quando tiver mais tempo.

E ao Bartolomeu Martins (Catalogador), agradeço por pelos apartes e por estas palavras gentis sobre meu trabalho: “Quanto ao Emir Ribeiro, é um bastião resistente da nossa HQ contra todas as intempéries que sempre recaem sobre ele e mesmo assim, às suas expensas continua a fazer e fazer quadrinhos... O Emir é daqueles que não se abate, sua produção é prolífera... Acho que não custa dar um voto de confiança a estas ações independentes, que unicamente ainda produzem algo brazuca, para mim são verdadeiros heróis.”

Abraços a todos.
Emir Ribeiro

 




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